A origem sangrenta do partido que comanda a Coreia do Norte

De organização política a regime familiar institucionalizado, história da sigla que comanda os rumos do país mais fechado do mundo é singular e sangrenta

A Coreia do Norte celebrou neste sábado (10) o 70º aniversário da fundação de seu Partido dos Trabalhadores, que controla o Estado. Kim Jong-un, o neto do homem que consolidou o comando do partido, esteve à frente das espetaculares comemorações.

A história da transformação do partido – de organização política a regime familiar institucionalizado – é singular e sangrenta, como explica o especialista em Coreia do Norte Michael Madden:

Um adolescente com uma ideiaEm 17 de outubro de 1926, um Kim Il-sung ainda adolescente, que logo se converteria no primeiro líder da Coreia do Norte, estabeleceu a União para Derrotar o Imperialismo. Segundo a propaganda oficial, a organização foi fundada para lutar contra o imperialismo japonês e promover o marxismo-leninismo.

A máquina de propaganda norte-coreana procura celebrar esse momento como o aniversário de fundação da sigla. Para outros, a verdadeira criação ocorreu em 1949, quando os comunistas da Coreia do Norte e da Coreia do Sul finalmente estabeleceram uma coalizão com o objetivo de avançar rumo a uma Coreia unificada.

Mas, na verdade, a raiz do órgão que governa o país hoje está na criação do birô norte-coreano do Partido Comunista da Coreia, em 1945.

A criação de um líderKim Il-sung era uma espécie de lenda urbana conhecida por um ousado ataque ao povoado de Pochonbo, em 1937, quando, aos 24 anos, teria comandado a unidade militar que capturou a localidade controlada pelo Japão na fronteira coreana. O episódio foi visto como um importante feito militar, apesar de ter durado apenas algumas horas.

Os soviéticos o colocaram no centro de uma rara coalizão que se converteu no Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. O grupo incluía ativistas sino-coreanos, membros da diáspora coreana da Rússia, comunistas da Coreia do Sul que emigraram para o Norte e milicianos das guerrilhas de Kim.

Nos anos posteriores a 1945 outras pessoas tiveram posições chave na estrutura comunista da Coreia do Norte, mas Kim Il-sung continuou sendo sua principal figura.

Ele não tinha um perfil público muito destacado – algo que os soviéticos trabalharam de forma lenta, mas constante.

O primeiro expurgo sangrentoCom Kim Il-sung estabelecido no poder em 1950, a reunificação com a Coreia do Sul ocupava um lugar de destaque na agenda da Coreia do Norte, e daí se produziu a guerra da Coreia.

Kim começou a consolidar seu poder eliminando os comunistas que tinham vínculos com a Coreia do Sul, muitos dos quais foram acusados de espionagem.

Russos e sino-coreanos que haviam sido parte dos primórdios do partido foram retirados do caminho por meio de exílios, prisões e desaparecimentos.

É sabido que funcionários do partido vinculados à Rússia e à China que organizaram um complô contra Kim Il-sung foram eliminados após um conflito dramático no Congresso do partido em 1956.

Alguns dos descendentes dessas pessoas ainda vivem em centros de detenção política.

Criando um sistema de castasApenas um ano mais tarde, o Partido dos Trabalhadores adotou o sistema de castas ‘songbun’. Era, na verdade, um expurgo político massivo da sociedade da Coreia do Norte por meio de uma classificação social.

Há poucas explicações definitivas sobre o ‘songbun’, conhecido por ser ao mesmo tempo complexo e misterioso. Em essência, a população era separada em três grupos: a classe central, a classe indecisa e a classe hostil.

Os integrantes da chamada classe “hostil” eram aqueles considerados como ameaça política, e não tinham esperança de obter qualquer avanço pessoal ou profissional.

O Departamento de Orientação do Partido exercia o controle e muitos especialistas acreditam que esse era o verdadeiro poder central na década de 1960, quando as autoridades começaram a classificar a cada cidadão como amigo ou inimigo.

Nasce o culto ao líderUm banho político de sangue ocorreu entre 1967 e 1971, quando 17 altos funcionários foram expulsos.

As expulsões visavam membros da guerrilha original de Kim Il-sung.

Na ocasião, foram expulsos líderes militares da época em que o barco espião americano USS Pueblo foi capturado pelos norte-coreanos, em 1968. E diferentemente de outras expulsões, alguns dos punidos voltaram ao poder anos depois.

Depois do quinto congresso do partido, em 1970, completou-se a transformação de um típico partido político marxista-leninista em uma sigla de veneração a Kim Il-sung, voltada a cumprir suas vontades.

Assunto de famíliaO passo seguinte era garantir que o filho de Kim Il-sung tivesse condições de assumir o poder. Kim Jong-il foi elevado a cargos de liderança no partido em 1973 e em 1974, e o mais importante deles foi o de chefe do Departamento de Orientação.

A partir desses postos, Kim Jong-il foi ultrapassando muitos de seus correligionários. E castigava quem se atrevia a criticá-lo, como sua madrasta Kim So’ng-a’e, que o pressionava para deixar o posto de sucessor para seu filho Kim Pyong-il.

Usando seu controle sobre os meios de comunicação da Coreia do Norte e seus vínculos com as agências internas de segurança, Kim Jong-il conseguiu isolar sua madrasta e seus meios-irmãos. Na década de 1990, Kim Jong-il expulsou dezenas de altos oficiais, assumindo assim o controle dos militares.

Os anos selvagens – Após a morte de Kim Il-sung em 1994 e por força da escassez de alimentos que atingiu a Coreia do Norte, nos anos conhecidos como os da Penosa Marcha, o partido se converteu em uma entidade moribunda. O Comitê Central não se reuniu entre 1993 até 2010 e seus postos-chave em aberto ficaram sem preenchimento.

O órgão ainda tinha funções administrativas, mas estava diminuindo como entidade política. Em 2010, Kim Jong-il reviveu o partido como instituição política para fazer frente ao agravamento de sua saúde e promover a sucessão de seu filho Kim Jong-un.

O partido agora é a famíliaSob o comando de Kim Jong-un, o partido prosperou como instituição política.

O atual líder norte-coreano tem se envolvido desde 2007 no renascimento do partido, e no posto de líder supremo, como seu avô, usou o Birô Político da sigla para demitir publicamente funcionários rebeldes, como fez com o ex-chefe do Estado Maior, Ri Yong-ho, e até com seu próprio tio Jang Song-thaek.

Kim Jong-un também está construindo sua base de poder a partir da Comissão Militar Central da sigla. Assim sustenta o legado familiar de hegemonia total dentro do partido, segundo reportagem do G1.

Notícias Minuto

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Jornalista - Diretor de TV - Editor -Cinegrafista - MTB: 44493-SP

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