Denúncia de uma Agente Educacional em Araraquara

Denúncia de uma Agente Educacional em Araraquara

Por motivos óbvios vamos salvaguardar o nome da Agente, para que não sofra ameaças e sanções administrativas, ninguém gosta de ouvir as verdades, principalmente os governantes

O texto publicado abaixo não sofreu correções, edições ou alterações, estamos publicando na íntegra.

Beto boa tarde, 

Desculpe a demora mas eu estava fazendo algumas correções e incrementando com novas notícias. Me diga o que achou e se vc publicar, quando será tá bem??

Obrigadaa!

Por Maria das Dores (nome fictício)

“As vezes, quando eu paro pra pensar no cargo de Agente Educacional, da Prefeitura Municipal de Araraquara, tento ter uma lembrança feliz.
Algum momento que me faça ter orgulho deste trabalho. Forço minha memória, e depois de anos no mesmo cargo posso dizer: foram muito poucos.
Quase inexistentes, E os momentos bons que tive foram com as crianças. Sabe quando você se orgulha de ter feito parte do crescimento das crianças, quando você ensina a ela que ela pode ser independente.
Que pode comer sozinha, se vestir sozinha, tomar banho sozinha. Mas sempre com o olhar atento da “tia” para que nada de ruim aconteça.

Pois bem, de alguns anos pra cá (uns 6 ou 7 anos pra ser mais exata), nós agentes educacionais, passamos a perceber que estávamos cumprindo um papel importantíssimo no desenvolvimento das crianças em si, tanto no crescimento quanto no aprendizado.
E descobrimos ainda, que estávamos exercendo desde sempre, desvio de nossas funções.
Hoje, 90% das agentes educacionais da rede municipal, tem formação em pedagogia. Algumas tiveram a oportunidade de fazer, como proposta do governo de Edinho Silva no Pedagogia Cidadã, outras não tiveram essa chance e se desdobraram para pagar as contas, cuidar de suas casas e famílias, e ainda conseguirem se formar, mesmo que por ensino a distância.
Esta formação, contudo de nada adiantou para o crescimento da função, ao contrário, a prefeitura do município, retirou o direito de “ganharmos” um pouco mais com a comprovação de títulos de Pedagogas (os). Um direito roubado de todas nós.

Prestando mais atenção, passamos a perceber que estávamos exercendo um desvio MAIS ABSURDO AINDA de nossas funções e que a Secretaria Municipal de Educação nos “obrigava” DESCARADAMENTE a fazer isso.
Com seu assédio moral, insistiam que se não fizéssemos o que era solicitado, sofreríamos represálias, como Processos administrativos, ou ser transferidas para unidades distantes por exemplo, dentre outras coisas.

Sobre os desvios de Funções: Caracteriza-se desvio de função TUDO que esteja fora do edital de publicação dos concursos que as agentes prestaram.
Exercemos funções tais como: atividades pedagógicas (que são funções do magistério), execução de planejamento de atividades (o que também é função do magistério) e execução das atividades planejadas (magistério). Nos Cer’s (Centros de Educação e Recreação) do município, elas exigem que nós enquanto agentes educacionais exerçamos todo o tipo de função do magistério!
O problema em si, não é esse, mas sim a falta de reconhecimento e respeito dos nossos esforços para com o nosso trabalho e o desenvolvimento educacional de nossas crianças.
A SME, não admite que exercemos desvio de funções mesmo tendo provas disso. Não admitem que nossa profissão vai além de simples “cuidadoras de crianças” e não aceita a evolução de nosso cargo, como tem acontecido em várias cidades do interior de São Paulo e também na capital.
Nos esforçamos ao máximo para que nossas crianças tenham educação de qualidade, contudo, recebemos um salário inferior, trabalhamos 8 horas por dia e exercemos as MESMAS funções que o magistério exerce, porém, trabalhando 4 horas por dia, com horários vagos para planejamento e um salário bem inferior ao nosso.

Sendo assim, não importa NADA do que façamos ou argumentemos com SME e prefeitura.
Elas simplesmente ignoram o fato de que sem as agentes educacionais, os Cer’s não funcionariam, simplesmente não existiria este formato de creche que conhecemos! Elas ignoram o fato do quanto nos esforçamos diariamente para sermos reconhecidas e termos nossos direitos adquiridos!

Para a SME, somos mão de obra barata. E mais nada. Elas ignoram o fato de que precisam de nós!

E neste último ano, soubesse que elas querem “nos dar” (vejam como são boazinhas) horário para planejamento!
A ideia delas é convencer a comunidade Araraquarense que dispensando seus filhos mais cedo, ou levando eles mais tarde para a creche todos os dias, nós teremos meia hora para PLANEJAR as atividades do DIA SEGUINTE.
Com esta atitude, admitem nossos desvios de funções! Admitem que PRECISAM que nós cumpramos as atribuições do Magistério!

Não levam em consideração as mães que como nós, entram cedo no trabalho e saem tarde. Mães que não tem condições para pagar outras pessoas para ficarem com seus filhos. Mães que precisam desta assistência da creche. Elas ignoram. A única coisa que elas querem saber agora é de nos fazer engolir esse horário, sem nem nos perguntar se concordamos, e ainda enviar para as creches todos os meses do ano, trabalhos pedagógicos pré determinados, por um tipo de comissão de educação existente dentro da Secretaria Municipal de Educação chamado LAPEI.

Elas enviam o material que as agentes são OBRIGADAS a executar e ainda emitir relatórios, além de enviar fotos dos projetos, e não querem saber se teremos tempo hábil. (mais uma vez o desvio de função)
Não procuram saber da realidade funcional do CER
Que existe uma rotina, e que nesta rotina nem sempre temos tempo suficiente para realizar a chamada das turmas, quanto mais atividades pedagógicas que não são de nossa competência e que nem sequer temos formação suficiente pra isso!

Existem creches, que ultrapassam os números de crianças por turma, e muitas vezes os acidentes são inevitáveis.
Mas a culpa nunca é da SME, que entope as creches com crianças sem ter a mínima noção das condições de trabalho, espaço e vivência que temos lá dentro.
Sem ter a noção que muitas vezes 1 agente precisa ficar com 8/9 bebês porque não existem funcionárias o suficiente. Desta forma, sempre haverão acidentes nas creches, e a culpa sempre recairá sobre os nossos ombros.
Desta forma, foi feita então uma denúncia no Ministério Público onde PROVAMOS os muitos desvios de função, denúncia essa, que corre em segredo de justiça.

Elas querem saber de resultados. Querem fotos para comprovar o “quão linda e eficiente é a educação do município”, mas perguntem-se mães que estão lendo este relato, quanto tempo seu filho ficou sozinho com uma única agente educacional enquanto a outra cumpria a obrigação do projeto para que não fosse retalhada pelas superioras?
Será que os olhos estavam sempre neles, ou nos projetos que tem prazos para ser entregues?
As agentes que fazem estes projetos, não podem ser culpadas. Existem ameaças e assédios velados que TODAS temos medo de sofrer.
Vejam, a culpa não é NOSSA porque a prefeitura não tem a capacidade de contratar mais profissionais para as creches e escolas, a culpa não é nossa se eles não nos capacitam, e se quando nós nos capacitamos por conta própria, não temos um pingo de valor e respeito lá dentro.

Não podemos e não vamos generalizar.

Algumas superioras (diretoras) entendem e concordam com a nossa luta. Mas elas são só mais peças nesse grande jogo político em que se transformou a Educação no nosso município.

Elas cumprem ordens e precisam nos fazer cumprir também.

E tudo isso, sem mencionar as agentes educacionais das escolas municipais (EMEF’S) da cidade, que por vezes, são obrigadas a assumir salas de aula (muitas vezes durante toda a semana), por falta de professores nas escolas.

Como assumir uma sala de aula, se não somos capacitadas para tal cargo?

Como é possível que elas abusem tanto de seu poder, e nos coajam tanto, a ponto de 40% das agentes educacionais se afastarem por estafa, depressão, dentre outras doenças que acabam aparecendo ao longo dos anos sendo funcionárias de uma prefeitura tão omissa e enganadora?

É um absurdo grande demais. Chega a ser inacreditável, porém este é o nosso dia a dia nos Cer’s e EMEF’S da cidade.

Por isso mamães, pedimos que analisem os fatos e que concluam por si mesmas, se a creche ou escola em que estão seus filhos, são realmente lugares com uma boa qualidade de ensino, de tratamento e convivência, avaliem bem se vale a pena aceitar que seus filhos sejam mandados embora pra casa mais cedo, para exercermos uma função que não nos cabe.

Se é que usaremos este tempo realmente para o tal planejamento.
Pensem no futuro dos seus filhos e no bem estar deles, pensem se vale a pena colocá-los para dormir numa sala com mais 45 crianças, apertados, com ventilação quase inexistente, pensem se não vale a pena cobrar do município melhores condições no tratamento e estrutura onde nossos filhos passam boa parte do dia, enquanto estamos na labuta.

E não pensem JAMAIS,  no bem estar de uma rede de pessoas que não se importam nem com vocês Mães, nem com seus filhos que são como uma segunda família pra nós e muito menos em nós, que cuidamos deles 9 horas e meia por dia!

Pensem se vale a pena ser conivente com a ganância e a falta de comprometimento destas pessoas.

SÓ UMA RESSALVA: A ordem que as unidades tem é de NÃO ENVIAR A CRIANÇA SEMI-ALFABETIZADA PARA ESCOLA.

Porém, alguns CER’S que fazem isto, se gabam disso em plena internet, e a SME ao invés de dar este direito para os outros CER’S também, faz vista grossa e finge que nada acontece.

Porque não preparar nossos filhos para adentrarem o Ensino Fundamental?

Eles não são dignos? PORQUE FAZER TANTA DIFERENÇA DE UMA UNIDADE PARA OUTRA? PORQUE TRATAR ALGUMAS COM PRIORIDADE E OUTRAS SIMPLESMENTE IGNORAR?

Fica aqui todo o relato de um universo, que a maioria das mães desconhece.

E ficam os desejos de que vocês se unam, e façam a algo a respeito.

Obrigada pela atenção de vocês! Desejamos que vocês nos compreendam como mães e seres humanos, porque estamos cansadas de sermos tratadas como cães sarnentos por quem deveria nos incentivar a crescer e ter um melhor desempenho em nosso trabalho e acima de tudo, quem deveria pensar no bem estar das crianças.

Obrigada.”

Por Maria das Dores (nome fictício)
CASO ACHE NECESSÁRIO A PREFEITURA TERÁ O MESMO ESPAÇO PARA CONTESTAR O CONTEÚDO DESTA DENÚNCIA.

About Beto Fortunato
Jornalista - Diretor de TV - Editor -Cinegrafista - MTB: 44493-SP

Beto Fortunato

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Um comentário em “Denúncia de uma Agente Educacional em Araraquara

  • 23 de fevereiro de 2016 em 01:33
    Permalink

    Meu Deus! Que ortografia lamentável!
    Pobres crianças…

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