Um quarto dos brasileiros não vai ao oftalmologista, indica pesquisa

Dos que dispensam o acompanhamento, 60% o fazem porque alegam “enxergar bem”, como Cavalcanti. Uma premissa tão equivocada quanto arriscada.


Aconteceu no último Carnaval. O primeiro sinal veio sob a forma de pequenos pontos pretos, flutuando diante do olho direito. Mas, Alexandre Cavalcanti, 49, não deu importância. Na manhã seguinte, quando acordou, o consultor de sistemas já não enxergava praticamente nada. Bateu o pânico.

Era feriado. Do médico encontrado às pressas veio o diagnóstico: descolamento de retina. “Você pode ficar cego”, afirmava o especialista, insistindo na urgência da cirurgia. Cavalcanti decidiu arriscar e esperar pela volta de seu oftalmologista. Em 48 horas, foi operado. Hoje, completamente recuperado, se emociona ao lembrar o episódio. A angústia daqueles dias, ele sabe, poderia ter sido, se não evitada, amenizada.

Portador de alta miopia havia seis anos, Cavalcanti não fazia check-ups. “Um monte de coisa para fazer e a gente vai levando”, justifica ele. “E o que está bom, você acha que não tem problema.”

Se fosse ao oftalmologista ao menos uma vez por ano, como preconiza a medicina, Cavalcanti saberia que miopia grave é fator de risco para descolamento de retina.

O caso ilustra o comportamento de muitos brasileiros em relação à saúde ocular, como mostra pesquisa Datafolha, com 2.088 pessoas, em 130 municípios. Delas, 24% não vão ao oftalmologista.

É a minoria, sim, mas um contingente grande o bastante para despertar a preocupação de especialistas, sobretudo porque metade do total de entrevistados relata alguma dificuldade para enxergar. Por outro lado, 42% dos ouvidos disseram ter ido ao oftalmologista ao menos uma vez nos últimos 12 meses.

Dos que dispensam o acompanhamento, 60% o fazem porque alegam “enxergar bem”, como Cavalcanti. Uma premissa tão equivocada quanto arriscada. “O sistema óptico funciona por compensação”, diz o oftalmologista Rodrigo Pegado, da SBO (Sociedade Brasileira de Oftalmologia). “Como temos dois olhos, muitas vezes um olho acaba compensando o que está ruim e a pessoa tem a falsa sensação de que está tudo normal.”

Além disso, condições graves, como catarata e glaucoma, são lentas e silenciosas. Quando surgem os primeiros sintomas, pode ser tarde.

Caracterizado por danos progressivos no nervo óptico, o glaucoma, por exemplo, pode avançar ao longo de 10, 20 anos, sem dar nenhum sinal. E fibra óptica lesionada não se regenera, alerta Pegado. Segunda causa de cegueira no Brasil, o distúrbio afeta 900 mil pessoas no país, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde).

No Brasil, segundo o IBGE, 35 milhões de pessoas têm algum problema ocular. Deles, quase 600 mil são cegos. Em 80% dos casos, a visão poderia ter sido preservada com medidas preventivas e/ou tratamentos adequados, diz a OMS.

Não é por falta de informação. Conforme o Datafolha, 95% dos entrevistados conhecem as principais doenças oculares. Entre as mais citadas estão catarata (95% das menções) e glaucoma (74%).

Outro dado da pesquisa que chama a atenção dos especialistas é a qualidade das consultas preventivas. Dos que vão ao médico regularmente, menos da metade é submetida a outros exames além do teste de acuidade visual.
Muitas vezes, o paciente lê facilmente as letrinhas da tabela de Snellen e, ainda assim, tem doença grave. O rastreamento básico, diz o oftalmologista Pegado, prevê também medição da pressão intraocular e análise do fundo de olho.

Bons hábitos, como não fumar e ter dieta equilibrada, são igualmente fundamentais para a saúde dos olhos.

Com o aumento da expectativa de vida, a incidência das doenças oculares também cresce. Muitas estão associadas à falta de controle de outras condições crônicas, típicas do envelhecimento. Uma das mais comuns e perigosas, a retinopatia diabética, na imensa maioria dos casos, surge em decorrência do manejo inadequado do diabetes.

Deixada a seu próprio curso, a complicação microvascular da retina, causada pelo excesso de glicose no sangue, pode levar até 50% dos pacientes à cegueira em cinco anos. No Brasil, o Ministério da Saúde estima em 2 milhões o número de doentes.

Junto com hipertensão e aterosclerose, o diabetes também é fator de risco para OVR (oclusão venosa da retina), caracterizada pelo enrijecimento das artérias da retina ou por sua obstrução, causada, em geral, por coágulo.

A urgência na promoção da saúde ocular não visa só o bem-estar dos pacientes de hoje, mas também conter a explosão de problemas prevista para os próximos anos.

O descuido com a prevenção impacta a qualidade de vida dos doentes e suas famílias, e a precariedade das políticas e programas de detecção precoce afeta cofres públicos.

A lei 14.126, promulgada em 2021, garante a quem enxerga apenas com um olho os mesmos direitos e benefícios dos deficientes. “Há uma importância muito grande da prevenção como estratégia política de redução de custo social”, afirma Pegado.

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Jornalista - Diretor de TV - Editor -Cinegrafista - MTB: 44493-SP

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