‘A vitimização sempre foi fator na decisão de voto’, diz Cesar Maia

‘A vitimização sempre foi fator na decisão de voto’, diz Cesar Maia
      Vereador do Rio diz que exposição de Bolsonaro na mídia após atentado favoreceu o presidenciável do PSL

8: |IDNews/Estadão/Roberta Jansen | 2018OUT23 | Foto: © Fabio Motta/Estadão

RIO – Derrotado nas eleições por uma vaga ao Senado pelo Rio de Janeiro, o ex-prefeito e atual vereador no Rio Cesar Maia (DEM) afirma que o atentado contra o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, foi fundamental para o crescimento do presidenciável nas pesquisas de intenção de voto. Segundo ele, o episódio deu a Bolsonaro um espaço na mídia maior do que o tempo de exposição que tinha no horário eleitoral da televisão – que era mínimo – e o apresentou ao eleitor como vítima.

“A vitimização sempre foi um significativo fator na decisão de voto”, afirma Maia, em entrevista ao Estado. Perguntado se a eventual eleição do candidato do PSL poderia representar um risco à democracia, respondeu que isso “é uma besteira enorme ou completo desconhecimento das instituições pós-Constituinte, já testadas em vários momentos”.

Maia considera ainda que, ao tentarem explicar os resultados do primeiro turno, os analistas políticos têm esquecido os efeitos da Operação Lava Jato – a ação levou à cadeia ou a serem processados criminalmente muitos políticos. Ele comparou os efeitos da ação brasileira aos da Operação Mãos Limpas, que varreu a política da parlamentarista Itália nos anos 1990.

“Num presidencialismo vertical como o nosso, o efeito da Operação Lava Jato, se não for entendido pelos vencedores atribuindo-se causas, pode gerar um impasse legislativo. Isso vai depender, se for o caso, do entendimento do presidente.”

Como o senhor avalia o impacto das fake news na vitória de Bolsonaro? Muitos especialistas dizem que as redes de WhatsApp da família e a disseminação de notícias falsas em progressão geométrica teriam sido cruciais para a vitória.

Não creio. Essa é uma visão ingênua das redes sociais. Já escrevi que os analistas estavam se esquecendo da Lava Jato, na mesma dinâmica da Operação Mãos Limpas e com o mesmo impacto no Parlamento. A tentativa de assassinato alterou a exposição dele na mídia, que ficou muito maior que o tempo de TV eleitoral que ele não tinha, mudou o quadro das pesquisas. A vitimização sempre foi um significativo fator na decisão de voto.

O senhor considera que a eleição de Bolsonaro pode ser um risco real à democracia?

De forma alguma. Isso é uma besteira enorme ou completo desconhecimento das instituições pós-Constituinte, já testadas em vários momentos.

Em análise publicada em seu blog, o senhor compara o que está acontecendo no Brasil hoje ao que ocorreu na Itália alguns anos atrás, durante a operação Mãos Limpas, e a subsequente eleição de Berlusconi. Qual a relação entre tais operações contra a corrupção e o surgimento de lideres da extrema-direita?

A relação não é ideológica. O impacto percebido nas ruas pelo “sentimento popular” atingiu todos o espectro político. Mas favoreceu mais os que estavam incólumes a fatos contaminadores.

Mas no caso da Itália, o regime é parlamentarista. Como fica essa situação no caso do Brasil, que é presidencialista, diante de uma possível eleição de Bolsonaro?

Na Operação Mãos Limpas, no parlamentarismo, mudaram os personagens e a nominata dos partidos, mas a estabilidade parlamentar se manteve mesmo que oscilando as maiorias. Num presidencialismo vertical como o nosso, o efeito da Operação Lava Jato, se não for entendido pelos vencedores atribuindo-se causas, pode gerar um impasse legislativo. Isso vai depender, se for o caso, do entendimento do presidente.

O senhor acredita ser possível a criação de uma grande frente ligada à candidatura deFernando Haddad?

Não acredito. A pulverização político-parlamentar nessa eleição mostra que os blocos serão reconstruídos no Parlamento, e não na campanha presidencial. As “mensagens” das campanhas é que serão fundamentais. Por exemplo, no Rio todos pensavam que o tema era a segurança pública e desemprego, e não foi.

Como o senhor explica a derrota de sua candidatura ao Senado? O senhor esteve à frente nas pesquisas de intenção de voto praticamente durante toda a campanha. O que houve?

A regionalização do voto no Rio é assim há muitas décadas. Perdi na Baixada e em São Gonçalo. Nas pesquisas anteriores, Lindbergh Farias (candidato do PT, também derrotado para uma vaga no Senado) vencia aí, e a diferença era pela margem de erro. Arolde (de Oliveira, do PSD) venceu aí e por uma diferença global inferior a 1%. Em cada Estado, há uma explicação. Aqui no Rio, para o Senado, a impulsão presidencial não explica a diferença entre segundo e terceiro. A evangélica, sim, para aquelas regiões.

Qual o peso real dos evangélicos nessa disputa eleitoral?

As igrejas evangélicas tiveram pela primeira vez um peso maior que a católica nessas eleições no Rio. Seu ativismo e adaptação às regras do TRE as diferenciou e muito. O vice de (Wilson) Witsel (candidato ao governo do Estado pelo PSC) é vereador católico militante, mas isso nunca foi usado, pelos fatos e cenários.

O senhor atribuiu o crescimento, na disputa pelo governo do Rio, de Wilson Witzel, que chegou em primeiro no primeiro turno, ao apoio dos Bolsonaro?

Os sinais que ele se aproximaria e poderia ultrapassar Eduardo Paes (DEM) eram nítidos nos últimos dias ou até um pouco antes (do primeiro turno). As pesquisas medem opinião pública. Na Inglaterra nos anos 1930 se diferenciava “sentimento popular” de “opinião pública”. Sentimento popular é uma reação mais ou menos difusa das pessoas aos fatos.

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Jornalista - Diretor de TV - Editor - Câmera -

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